"À Deriva"

SOBRE VÍNCULOS E CONEXÕES*

Drª Lia Fátima Christovão Falsarella -  Psicanalista e Membro Efetivo da SBPRP

 

“Voar suavemente traz contentamento, voar sem direção provoca estresse. A mudança é jubilosa; a volatilidade, incômoda.”(Bauman, 2004, p 64)

 

 

 

Quero agradecer à Comissão de Cinema e Psicanálise por mais esse convite. É uma atividade que sempre me dá muito prazer. Quero agradecer especialmente à Josi e à Andrea  e a todos que estão aqui para esta nossa conversa.

INTRODUÇÃO:

Logo que assisti esse filme, fui tomada por dois sentimentos: por um lado, achei o filme lindo, de uma grande delicadeza e sensibilidade no trato de um assunto também tão delicado e íntimo, da relação entre filhos e pais... filhos crescendo, pais se separando... Isso me despertou uma série de associações e considerações. Achei que fizeram algum sentido e resolvi chamá-las aqui de “considerações sobre um mundo sólido”. Porém, um outro sentimento me incomodava, mais vago este e mais inquietante também. Levei um tempo para saber do que se tratava, para que aquilo fosse tomando forma: uma sensação de coisa anacrônica, meio antiga, nostálgica, deslocada no tempo... O figurino talvez... Fiquei sabendo, então, que o filme, lançado em 2009, dirigido por Heitor Dhalia, desenvolve uma cena familiar dos anos 80 e tem algo de autobiográfico. E, aí, eu pensava: será que essa questão – adolescência e separação dos pais – seria relevante, seria um assunto bastante estimulante para um filme enfocado nos dias atuais? Separação dos pais – não é parte, hoje, do nosso cotidiano, tanto mais “tranqüila” quanto mais “civilizado” o casal? Quem se sente perplexo ou impactado com isso? Afora, que as coisas andam ficando antigas depressa demais... Então, me ocorreram algumas questões, muito mais dúvidas e questões que reflexões amadurecidas, como vocês já estão vendo e que eu chamei “questões sobre um mundo líquido”, plagiando a expressão “mundo líquido” de um sociólogo polonês da atualidade chamado Bauman que eu vou, ainda, citar mais vezes.

CONSIDERAÇÕES SOBRE UM MUNDO SÓLIDO:

O filme tem por título – À Deriva. É aquela primeira cena do filme: a garota boiando sobre as ondas calmas em companhia do pai, cena belíssima, solta... Eles filmam de baixo para cima, o que dá bem a idéia de desenraizado, flutuante, à deriva, no vai-e-vem constante de ondas calmas; um jogo de luz magnífico dá a impressão de movimentos sutis, suaves... A presença do pai é muito significativa nesta cena, inspira idéias de estabilidade e vínculos de confiança. Algo como poder estar só na presença de alguém, ou ainda, estados de não integração, bastante diferentes do que seria uma desintegração. Não é por acaso que me vêm à mente esses conceitos que remetem ao “Holding” winnicottiano – “holding” tem a ver com suporte, com sustentação.

Entendo que o filme trata de uma convulsão em um mundo sólido, uma situação de crise típica dos anos oitenta. Um mundo com parâmetros ainda estáveis, com durabilidade, com a expectativa, por exemplo, de se ter os pais juntos por toda a vida. A minha geração cresceu num mundo assim. Nos anos setenta, oitenta, as coisas já vinham mudando, mas, era possível apreender essa mudança em crises como a que o filme capta.Nessa inserção, de alguma estabilidade no entorno, com um casal parental estável, é coerente, encaixa bem, vamos dizer assim, pensar a adolescência, com toda sua turbulência, em termos de lutos. E assim, de fato, costumamos pensar. O adolescente vive uma crise de identidade, um trânsito do infantil para o adulto, então, é necessário que ele faça trabalhosamente, dolorosamente, seus lutos: luto pelo corpo infantil; luto pelos pais da infância, pais idealizados que o protegem, que o asseguram, que o provêem plenamente – o pai da primeira cena, o pai que garante – e; ainda, luto pela bissexualidade da infância, o que também aparece nos jogos deles; enfim, luto pela identidade infantil.

Então, podemos nos aproximar da adolescência – esse período tão mágico e tão doloroso das nossas vidas – pelo prisma dos lutos. Mas, esse é um prisma que requer certos parâmetros – é pensar num barco lançado ao mar, enquanto o porto e o farol permanecem no mesmo lugar. A meu ver, o drama que o filme conta é justamente este: o sofrimento de elaborar os lutos da infância, quer dizer, perdas, separações, quando, perdas e separações se superpõem no mundo externo. Como lidar com as dores do luto por esses pais idealizados da infância e, ao mesmo tempo, com uma mãe tão fragilizada, se alcoolizando, tentando se matar? Muitas vezes, o adolescente precisa dos pais como interlocutores reais para esses lutos. Por exemplo, quando o adolescente vai com uma avalanche crítica para cima dos pais, quer dizer, para cima de pais que, espera-se, permaneçam íntegros. Ninguém se lança agressivamente sobre alguém quando sente que esse alguém pode cair ou já está caindo, a menos que não se tenha amor, o que, geralmente, não é o caso do adolescente.

Como elaborar as questões edipianas? Sim, porque essas questões são revividas na adolescência, são retomadas. O adolescente passa por uma reedição do conflito edípico. Como lidar com essa elaboração, assistindo aos encontros íntimos do pai com a amante? No filme, isso é colocado com aguda sensibilidade – trata-se de uma cena bela mas, ao mesmo tempo, agressiva ao expectador. E, o que dizer dos aspectos agressivos do adolescente, que são mobilizados nessas elaborações? São elaborações, por um lado, de lutos e perdas, por outro, de avanços irrevogáveis. Tudo isso causa dor e dor, em personalidades saudáveis, pode mobilizar agressividade. Onde conter esses aspectos agressivos, quando há um terremoto nas relações familiares e a agressividade torna-se uma moeda comum? No filme, a imagem do acidente e do cão são muito expressivas dessa ruptura na continência da agressividade.

Porém, essas ponderações são possíveis e o filme mesmo é possível, me parece, tratando como crise essa situação, justamente, porque o desassossego, vamos dizer assim, recai sobre um mundo tido como sólido. Podemos falar de lutos porque há vínculos, vínculos afetivos, familiares, vínculos que são introjetados no trabalho do luto. Podemos pensar em luto quando algo se separa, se desliga, se desloca em relação a algo que permanece. A separação de um casal é convulsiva, é impactante, quando se tem a expectativa de uma união para sempre, até que a morte os separe...

QUESTÕES SOBRE UM “MUNDO LÍQUIDO”:

Até aqui, falei de coisas relativamente bem estabelecidas, inclusive, com “teorias fortes”(Rezze,2010), bem fundamentadas, consagradas. Daqui para a frente, vou mudar o tom. Vou falar de impressões, questões que divido com vocês, inquietações. Tem havido alguma literatura na psicanálise a respeito, mas, com certeza, a sociologia tem se debruçado muito mais sobre isso. Dos anos oitenta para hoje se vão trinta anos. Hoje, adolescentes seriam os filhos daqueles adolescentes. E vivemos num mundo onde as coisas ficam antigas depressa demais...

À Deriva – nesse nosso “mundo líquido”, teria expressão muito mais adequada no “Barco em Mar Revolto”, como é o nome do quadro do nosso cartaz, em franco contraste com – À Deriva – da plácida cena que inicia o filme. Aqui o risco é de desintegração, também em franco contraste com o estado de não integração

Vivemos num mundo chamado por alguns de pós-moderno, que se iniciou, exatamente, com as crises dos valores e parâmetros da modernidade, das quais, o filme é exemplar. Vivemos num mundo onde o tom é o do movimento, da mudança, da aceleração, da novidade, do imediatismo, do consumo... é esse conjunto constante que dá a idéia de um fluir incessante implícito no termo “mundo líquido” que tomo emprestado do Bauman, mais exatamente, de um livro muito interessante, intitulado por ele de “Amor líquido”. Esse autor, como já disse, é um sociólogo polonês, contemporâneo, que tem muitas outras obras ao redor desse tema. Nesse livro, então, ele fala de como o amor tende a dar lugar ao desejo e o desejo ao impulso, nos dias de hoje. O amor, tal como Diotime descreve para Sócrates, n’O Banquete (Platão, 427-347 aC), amor, não como “posse do belo”, mas, anseio de “gerar”, participar da “criação do belo”. Enquanto, no dizer de Bauman, o “desejo é vontade de consumir”(p 23), de ter a posse, absorver, ingerir, em suma... aniquilar. Mas, até o desejo tende a ser substituído pelo impulso – menos elaborado ainda e mais imediatista. Desejo leva tempo, diz ele, “um tempo insuportavelmente prolongado para os padrões de uma cultura que tem pavor em postergar”(p 26).

Nesse contexto líquido, os vínculos tendem a dar lugar a conexões. Ambos os termos têm o sentido de unir, de ligar. Porém, enquanto vínculos – humanos, afetivos, essência das mais primordiais relações que, introjetados, promovem sentido, crescimento, mente... conceito caro à psicanálise, que define a unidade como sendo o par – unem um sujeito a um objeto; conexões se prestam a ligar enquanto elos numa rede, como a mulher entrevistada nessa situação catastrófica do Japão – era uma entrevista logo após a tisuname, portanto, no impacto do desastre, o que a torna ainda mais significativa – a mulher, então, respondia ao repórter: O pior é que as indústrias estão fechadas, não podemos trabalhar; se não trabalhamos, não ganhamos, não podemos comprar e o país para.

Como diz Laymert Garcia dos Santos (ele também sociólogo, sociólogo da tecnologia, como ele se define), então, como ele diz, num debate, publicado na Revista Ide, em 2006, o que tende a mudar é a “unidade que faz sentido”. Nesse caso, tendemos a nos identificar ou a nos valorizar como elos numa rede, desindividualizados. O que importa é o circuito e que não pare. Nesse contexto, surge a figura do “ficante”, por exemplo. Nesse mesmo debate, na Ide, Claudio Rossi (psicanalista) ponderava sobre aquela adolescente que beija quinze numa balada – “O que ela está simbolizando?” – pergunta ele e responde – “Acho que está brincando de ser parte de uma rede, como um ser plugável, em que, quanto maior a velocidade em plugar e desplugar, mais preparada ela estará para as novas formas de relação social”.

Com certa freqüência, nos deparamos com indivíduos retidos numa espécie de vai-e-vem fóbico: por um lado, uma ânsia avassaladora de liberdade e autonomia, por outro, uma imaturidade emocional paralisante. Por um lado, a pessoa não suporta envolver-se, comprometer-se numa relação o suficiente para vivenciar os conflitos inerentes à percepção do seu ser incompleto e dependente; por outro lado, a separação é sentida como aniquiladora, assim, esse é um circuito que se fecha sobre si. A solução para o dilema seria o que Bauman chama de “ideal de conectividade”, que ele coloca nesses termos: “Todo esse aproximar-se e afastar-se para longe torna possível seguir simultaneamente o impulso de liberdade e a ânsia por pertencimento. (...) O ideal de ‘conectividade’” – que seria o modelo de solução do impasse – “luta, para apreender a difícil e irritante dialética desses dois elementos inconciliáveis. Ele promete uma navegação segura por entre os recifes da solidão e do compromisso,(...) de um desprendimento irreparável e de uma irrevogável vinculação” (p 51).

É difícil esperar por uma relação que dure para sempre, por um casamento até que a morte os separe. Hoje, não causa maiores impactos a notícia que um casal se separou. Pelo contrário, causa admiração quando encontramos um casamento que vai resistindo e atravessando pela vida. Daí talvez esse sentimento de algo anacrônico em relação ao filme e o despertar de questões inquietantes, como algumas destas que trago para vocês e, com relação à própria psicanálise. Até onde, por exemplo, a psicanálise navega na contramão dessas tendências e se faz guardiã de certos valores e, até onde, a psicanálise, também inserida nesse contexto, caminha em consonância com todas as outras expressões do homem culto? Seja como for, creio ser de grande importância que se mantenha a disposição para o reconhecimento dessas questões e não apenas uma postura ingênua, a meu ver, de que a psicanálise está para além disso.

REFERÊNCIAS:

Aberastury, A., Knobel, M. (1980) Adolescencia Normal. Buenos Aires:Paidós. (trabalho original publicado em 1970).
Bauman, Z. (2004)  Amor líquido: sobre a fragilidade dos laços humanos. Rio de Janeiro: Zahar.
Meyer, A. V., Rossi, C., Santos, L. G., Leite, M.(2006).Aceleração Tecnológica e Quebra de Representações. Rev. Ide , 29 (43), 8-18. 2006.
Platão, 427-347(aC). (2007) O Banquete. Bauru-SP: Edipro.
Rezze, C. J. (2010) O Dia a Dia de Um Psicanalista: Teorias Fracas. Teorias Fortes. Revista Brasileira de Psicanálise, 44(3), 127-144. 2010.