"O ESCAFANDRO E A BORBOLETA"

Dr Pedro Paulo de Azevedo Ortolan  -  Psicanalista e Membro Efetivo da SBPRP

“O Escafandro e a Borboleta” é a versão cinematográfica do livro homônimo de Jean-Dominique Bauby, no qual o autor e personagem narra seus pensamentos, memórias e emoções vividas no período de aproximadamente um ano, decorrido entre sua doença e morte. Quando sofreu o derrame, aos 43 anos de idade ele era o jornalista e editor da revista de moda francesa ELLE.

O filme é uma co-produção franco-americana, de 2007 e a direção é de Julian Schnabel. É dele também: “Basquiat: Traços de uma Vida” (1996) e “Antes do Anoitecer” (2000).

Penso que o filme em si não traz grandes novidades. O fato de ser baseado numa história real, o impacto gerado pela mudança abrupta e violenta na vida de um indivíduo, o tipo de problemática abordada e os possíveis modelos de superação ou não, tudo isso tem sido explorado.

Todo tipo de narrativa dramática tem como principal objetivo colocar o espectador na posição do protagonista e, neste caso não é diferente. Mas, a questão é como contar este tipo de histórias sem banalizar a condição do individuo, sem abusar da sedução por meio de imagens explicitamente tristes ou chocantes. Nesta história em particular, como chegar a isso plenamente, de forma ética e respeitosa quando o protagonista é alguém de projeção como Bauby?

Esse é o grande mérito do diretor, que conseguiu transformar o drama real do personagem num filme artístico, mais sensível e até poético do que seus pares de gênero. Criativamente e delicadamente Schnabel como que nos conduz pela mão através do novo universo de Bauby, explorando, sobretudo, a ressonância interior do trauma e os ricos monólogos do personagem. Não por acaso “O Escafandro e a Borboleta” ganhou o prêmio de melhor direção no Festival de Cannes de 2007; levou dois Globos de Ouro, de melhor filme estrangeiro e novamente de direção e teve quatro indicações para o Oscar.

As belas paisagens –principalmente do interior da França- um idioma (Frances) mais agradável aos ouvidos, a escolha das músicas (em sua maioria conhecidas) e a magnífica interpretação de Mathieu Amalric... compõem a moldura do drama e são um atrativo a mais para o espectador.

O FILME - As primeiras imagens nos levam a experimentar, junto com o personagem, um estado de confusão: são imagens desfocadas, imagens de um lugar e de pessoas desconhecidas, e com vozes estranhas que se sobrepõem. Cenas essas acompanhadas por um som de batidas de coração, tendo ao fundo um canto estilo ópera.

E aí já aparece o talento do diretor: passamos o início todo do filme–período em que Bauby, logo após o derrame encontra-se numa cama de hospital- com uma única perspectiva: como se a câmera fosse o próprio olho dele, tentando entender o redor e o que está acontecendo. Somos levados a ver e vivenciar o drama do personagem através daquilo que o olho dele capta. Mudanças de lente e de foco ampliam o mal-estar, a sensação de angústia que Schnabel nos impõe: quando o personagem chora, por ex, a câmera fica mais embaçada e as imagens mais desfocadas, refletindo todo o seu sofrimento.

Aos poucos Bauby vai se inteirando dos fatos e de sua trágica condição. A equipe médica de forma clara e direta –mas distante afetivamente- o põe a par de tudo e explica que com os modernos recursos técnicos podem prolongar sua vida. Assim, ele torna-se consciente daquele recorte da realidade que, normalmente, todos nós evitamos pensar: que tem prazo de validade e que o vencimento pode não estar muito longe. Tem duas cenas muito impactantes nessa fase: a forte perplexidade quando ele descobre que não pode falar e o momento em que costuram um dos seus olhos (como a câmera parece estar dentro do olho, acompanhamos todo o seu desespero).

Sua situação revela um cruel paradoxo: está lúcido, pode ver e ouvir, mas tem o corpo todo paralisado e não pode falar. Praticamente não tem como exercer aquilo que o ser humano tem de mais primitivo e imperioso, que é a necessidade de comunicação. Resta-lhe apenas o olho E, uma das “janelas da alma”, como espelho a refletir o seu SER, a compartilhar seus sentimentos. Depara-se com o fantasma da solidão.

Essa questão torna-se crucial em Bauby não apenas pela incapacitação física. Porque, se por um lado ele se imagina abruptamente refém dentro do seu corpo-escafandro, de outro ele se vê também privado de tudo aquilo que alicerçava sua auto-estima: o mundo das aparências, toda a materialização que o poder econômico propicia, a projeção na mídia e outros fetiches como forma de reconhecimento e gratificação.

Jean-Dominique sente-se então completamente impotente. Não que ver os filhos e não quer ser visto. Nem quer ver a si mesmo! (“Nada de Espelhos! Tira esse Espelho daqui!”). A visão do corpo inerte e repudiado poderia expor também a descoberta da vulnerabilidade do Eu, toda a fragilidade subjacente e não há um abrigo confiável dentro dele para acolhê-la. Na sequência a história vai mostrando como a sensorialidade, e a superficialidade predominavam em suas relações. Com as mulheres suas escolhas eram sempre narcísicas e a atitude egocêntrica; com familiares o contato apenas tangenciava uma intimidade. Faltavam então vínculos estáveis e profundos que pudessem também ampará-lo. Portanto, ele não tem onde se agarrar e então não quer viver!

É quando entram em cena as duas profissionais extremamente dedicadas e humanas. A ortofonista em particular, humana até mesmo no momento em que sente raiva quando ele confessa que quer morrer. A fisioterapeuta humana também em sua crendice e ingenuidade.

A princípio ele não adere às propostas para ajudá-lo. Reage ora com franco ceticismo, ora com ironia, ou mostrando-se um crítico mordaz... reações essas que, embora sejam defesas para evitar a dor, o medo e o desamparo, estão mais a serviço de satisfações agressivas decorrentes das pulsões de morte. Mas, subjacente a esta atitude, podes-se perceber também que Bauby tem um razoável senso de humor e, o humor, ao contrário da ironia é um recurso psíquico criativo, cujo objetivo primordial não é ser engraçado, mas atenuar a carga de sofrimento de uma realidade dolorosa, permitindo ao indivíduo sobrepor-se ao lamento.

A partir daí o filme vai envolvendo-nos cada vez mais com a história do personagem. Pervertendo a noção de tempo, o diretor vai estabelecendo a ponte entre o passado, de um Bauby poderoso e bem sucedido e seu presente frágil e dependente.

Passa a receber visitas e as cenas agora acontecem no terraço do prédio, de onde ele avista o mar. Celine (“a mãe dos seus filhos”) é a primeira. E começam os auto-questionamentos: “eu tratava Celine e as crianças muito mal e agora posso não ter como abraçá-las nunca mais”. Depois vem Pierre Rosseau, um personagem acidental em sua vida; o tempo todo em que Rosseau mostra-se solidário, se identifica com ele e pela experiência adquirida quando viveu seu próprio drama, o aconselha a agarrar-se no humano dentro dele, Bauby está intrigado, perguntando-se porque não retornou a ligação de Rosseau na época em que ele saiu do cativeiro; sente-se culpado e envergonhado de não tê-lo feito.

Estes encontros e questionamentos o fortalecem para um mergulho cada vez maior para dentro de si, para receber sua própria visita. E nos deparamos então com uma das cenas que achei mais bonitas no filme: ele na cama, o dia amanhecendo, imagina-se em seu escafandro no fundo do mar; um rico caleidoscópio de imagens, lembranças e pessoas vão se sucedendo... aparece o visor do escafandro e o olho dele se revezando e se confundindo; em seguida surgem montanhas de gelo, feito rochas coloridas desmoronando, ao som da cantata de Bach, e o monólogo: “Hoje eu sinto que a minha vida é uma série de frustrações. Mulheres que não fui capaz de amar, oportunidades que não soube avaliar, momentos de felicidade que deixei escapar. Uma corrida cujo resultado em conhecia de antemão e não soube conhecer o vencedor. Tenho sido cego e surdo e um duro golpe me fez descobrir a minha verdadeira natureza”.

Este é um momento crítico por tratar da possibilidade de Jean-Dominique elaborar o luto pelas perdas sentidas, reconciliar-se com os equívocos cometidos, aceitar o não vivido. Se ele puder olhar para si com compaixão e, com a mesma paixão que dedicava a outras situações de sua vida, poderá ir adiante. Caso contrário corre o risco de tornar-se refém da dor e da culpa, vítima de um estado melancólico e aprisionador que, por drenar toda a energia da pessoa impõe uma monotonia e inércia asfixiante.

Shakespeare, em Hamlet nos apresenta esta situação de forma belíssima. Hamlet, ao refletir sobre seu destino no castelo de Elsinor no momento em que está atormentado pela suspeita de que o tio paterno matara seu pai para assumir o trono e desposar a rainha (sua mãe) diz: “Eu poderia estar recluso numa casca de noz e, mesmo assim sentir-me-ia dono de infinito espaço, não fossem os maus sonhos que tenho”. A referência aponta para a paisagem interna, para o mundo das fantasias, impressões, toda a imagética humana.

No próprio filme encontramos um paralelo com a condição de Bauby, em dois outros personagens: Rosseau mantido em cativeiro por quatro anos e Papinou que em função da idade e da dificuldade em caminhar, permanece “trancado” em seu apartamento. Ambos sujeitos a deprimir-se, desistir da vida ou enlouquecer.

Alguns fatores foram determinantes para Bauby atravessar essas águas turvas e reencontrar um sentido de vida. O primeiro, ironicamente, foi o suporte ambiental sólido e genuinamente afetivo proporcionado pelo time de mulheres belas e corajosas que estiveram ao seu lado: Henriete, Maria, Celine, Claude –a “transcritora” incansável- e o fiel amigo Lohan. Sentindo-se de fato aceito e amado enquanto o ser humano que ele realmente é, pôde também perceber em si sentimentos de gratidão e admiração, bons sentimentos que o amparam agora internamente.

Um segundo aspecto vital foi, sem dúvida, o restabelecimento da possibilidade de comunicação através daquele método engenhoso (piscando o olho) que exigia tanto dele, quanto do interlocutor, muita atenção e paciência. E outro fator decorre dos seus próprios recursos pessoais: Bauby é um sujeito inteligente, perspicaz e bastante criativo.

Todo este contexto aparece condensado em outra cena marcante: ele e a ortofonista estão já no lado externo do prédio, no pátio e a tomada é feita à distância, tendo ao fundo um céu azul bem vivo: “Eu decidi parar de ter pena de mim mesmo”... e neste momento a câmera inclui na cena a torre do prédio com o relógio soando badaladas...marcando simbolicamente um novo tempo. Ele prossegue: “Alem do meu olho, duas coisas não estavam paralisadas (surge então a imagem surrealista do casulo se abrindo por detrás da torre): minha imaginação e a minha memória (a câmera foca a borboleta saindo do casulo), eram as duas maneiras de escapar do meu escafandro”.

E é interessante notar que apenas neste momento em que ele encontra uma saída para sua existência, que a câmera foca, agora sim, o rosto de Bauby numa perspectiva próxima e frontal. Antes disso as imagens dele eram feitas sempre à distância, ou numa perspectiva lateral e parcial do rosto de modo a não gerar constrangimento nem para o personagem real nem para o espectador.

Resgatando parte do seu amor-próprio e readquirindo sua capacidade de sonhar, dar asas às suas fantasias, pode retomar o curso da vida mesmo em circunstâncias tão desfavoráveis. A libido é liberada novamente e volta a colorir seus planos antigos e suas relações atuais: decide levar adiante o projeto do livro (não mais “A vingança Feminina”, mas sua experiência ao longo deste reinventar-se após o derrame), projeto por tanto tempo adiado. Encomenda uma Van para seus futuros passeios: poderá realizá-los de fato? Não importa, ele agora deseja algo, tem esperança... A sensualidade com as mulheres reaparece no olhar e nas fantasias com elas.

Assume também que quer ver os filhos, com a convicção que “mesmo um esboço, um fragmento de um pai... ainda é um pai!”. Na verdade só agora é que ele torna-se pai mesmo, eu diria que antes ele “tinha filhos”. Sente saudades do pai e a instalação do telefone permite que entre em contato com ele, assim como com a amante. Vai recompondo assim sua história, costurando laços afetivos importantes que ficaram soltos pelo caminho.

Jean-Dominique sente necessidade ainda de saber o que aconteceu com ele, quer fazer o elo entre passado e futuro. Mas não quer que outra pessoa o informe... ele próprio quer lembrar, quer juntar os fios. E isso é fundamental porque não se trata mesmo de obter dados, nem da reprodução da situação traumática, e sim a integração da experiência emocional relativa a ela.

O que acho importante também observar é que o anseio por descobrir sua verdadeira natureza, o humano dentro dele, leva a mudanças significativas na relação consigo próprio e com os outros. Mas, ao mesmo tempo ele preserva aquilo que é genuíno em sua personalidade, como o espírito crítico, o bom humor, a sua ideologia religiosa. Não ocorre uma conversão moral, não há “nenhum milagre”.

Morre dez dias depois da publicação do livro. No período que antecede a morte as imagens voltam a ficar desfocadas, as vozes longínquas... e ressurgem as montanhas de gelo, só que agora num movimento inverso: elas vão reconstituindo-se!

*os trechos que aparecem entre parêntesis e em negrito correspondem a alguns dos monólogos do personagem.