"Billy Elliot"

Direção: Stephen Daldry

Inglaterra, 1984


Billy Elliot é um filme que não traz expectativa em relação ao seu final. Desde o momento que o ballet se configura para ele numa paixão, num amor e que ele passa a lutar arduamente por ele, pressupomos que ele conseguirá chegar ao seu objetivo. Cria-se uma curiosidade de como ele fará isso, como enfrentará as dificuldades, que recursos irá utilizar, enfim, como será seu processo de se tornar um bailarino.
Nesse sentido, me pareceu que no filme tomou-se como objeto da paixão o ballet. Poderia ser o amor por outra pessoa, por uma profissão, por uma causa, como por exemplo, a que é retratada no próprio filme, a intensa luta do pai e do irmão de Billy no movimento grevista. O que o Billy vivia em relação ao ballet – o conflito, o medo, a luta, a persistência – seu pai e irmão faziam no movimento grevista. A força de resistência que Billy enfrentou em relação ao pai e irmão, eles enfrentavam em relação ao governo.
Freud escreveu no início do século passado, que quem julga que as doenças mentais sejam doenças brandas, estão subestimando a sua origem, se referindo aos impulsos mentais como forças poderosas, intensas, impactantes, como foi retratado neste filme, na intensidade dos movimentos emocionais que compõem a vida afetiva dos personagens, o que torna essa história comovente e facilmente nos identificamos com ela.
Pretendo me centrar no processo desencadeado no Billy, após sua descoberta do ballet, que irá mudar toda sua vida e da sua família.
Sua história é ambientada numa província ao Norte da Inglaterra, em 1984, numa família operária, de classe média, em meio a um movimento grevista. Psiquicamente, poderíamos dizer, que é ambientada num processo de luto. Billy, seu pai, irmão e avó, cada qual a sua maneira, viviam sob o impacto da perda recente da mãe. Perda precoce (38 anos) e trágica.
Uma história em quadrinhos do Maurício de Souza, me fez associar como um modelo do processo de luto. Esta historinha, mostra o Horácio com seu amigo Piteco, que estava ranzinza, reclamão, não achava graça em nada, tudo era difícil, não aceitando nenhum convite do Horácio. Até que o Horácio vê que na sua pata existia uma enorme estaca, que o Piteco não conseguia ver e portanto, não conseguia tirá-la. O Horácio então a retira e o Piteco recupera seu humor. No luto, porém, a estaca está no coração, não sendo possível retirá-la ou alguém retirar. A elaboração significa a “incorporação” da estaca, da perda. Ela fica lá, toda vez que mexe dói, sendo que o tempo ajuda a acomodar a “estaca-perda” a ponto de não doer tanto.
Na família de Billy, a perda era recente, todos estavam sensibilizados. A avó demenciada; o pai e o irmão, embrutecidos pela dor – intolerantes, violentos, impacientes. Billy também estava sensibilizado. Essa sensibilidade atrai sua atenção para a música da aula de ballet. A música tinha para ele a representação de trazer a mãe de volta nas suas lembranças. Ele primeiro dança com o saco de boxe, depois, como que hipnotizado entra no grupo de meninas, ensaia uns passos... a professora intui seu talento... ganha as sapatilhas e... começa sua paixão pelo ballet e ... seus conflitos. Tais conflitos irão se configurar em dois níveis: com ele mesmo e com sua família.
Em relação ao conflito com ele mesmo, passa a desconfiar da sua própria identidade sexual. Ele também tem o conceito de que ballet é para meninas, não para meninos. E portanto, se ele se sente atraído e gosta de ballet, ele não seria homem. O conflito com a sua identidade sexual, a história nos mostra que ele vai elaborando através da sua relação com o amigo, com a Debbie (filha da sua professora) e com a própria professora, Sra. Wilkinson.
Com o amigo, o intenso afeto que sente por ele, o confunde. O amigo se veste de mulher, passa baton, põe o saiote de bailarina. Sentir afeto por outra pessoa do mesmo sexo confunde mesmo, porque em Psicanálise, a raiz deste afeto é um impulso sexual. Ele vive esse impulso transformado em afeto com o amigo, porém ele não escolhe o amigo como objeto de amor, até distinguir-se como diferente do amigo.
O afeto com a amiga Debbie é mais facilmente vivido, é lúdico, descontraído. Descobre que existem outros tipos relações familiares, tão complicadas como a sua; casamentos infelizes e nem precisa olhar a genitália da amiga para sentir-se homem. “Não precisa”, foi a sua resposta, diante da proposta da amiga.
Com a professora vive uma relação intensa, de proximidade, que vai além da relação professor-aluno. Teme pelos seus próprios impulsos sexuais e pelos dela também – qual o interesse que ela teria por ele. Sua relação com ela assume características de mãe-filho: ela o ensina, o estimula, briga, cobra desenvolvimento, fica ao seu lado contra seu pai, briga pelo talento de Billy. Com ela ele faz suas confidências, que o ajuda na elaboração da perda da própria mãe.
Dessa forma, ele compõe a sua identidade como um menino-homem e como bailarino, naquele momento. A identidade possível dos seus 11 anos.
Mas enquanto Billy vive todo esse questionamento, busca elaborar a sua própria identidade, seu pai e irmão não questionam. Eles têm certeza: todo bailarino não é homem, é homossexual. Eis aí o preconceito. O outro nível de conflito que Billy precisou enfrentar.
Em Psicanálise, considera-se que o desenvolvimento da identidade, da identidade sexual, é um processo longo e complexo, iniciado desde o nascimento. O relacionamento com os pais (ou as figuras que os representam), são fundamentais no sentido de permitir que a criança vivencie toda gama de impulsos (sexuais, agressivos), emoções, sentimentos, rivalidade, dando-lhe referenciais e ajudando-a a estabelecer suas bases de identificação. Ë um processo recíproco criança-pais (ambiente) - criança, emocional e inconsciente. E desse processo se estabelece a estrutura e funcionamento da personalidade. A identidade e a identidade sexual se estabelecem quando se compõe dentro de si a representação do pai e a representação da mãe, através das suas identificações. E isso pode levar uma vida toda, embora, espera-se que na vida adulta esse processo se conclua. Quando isso acontece, pode-se então exercer as funções paterna e materna, primeiro para si mesmo, e como conseqüência, com o companheiro escolhido, com o filhos, com a profissão, enfim, com as parcerias que se realizam durante toda a vida. Dessa forma, não se muda a identidade sexual de um menino fazendo-o dançar ou lutar boxe! Ou de uma menina! São processos internos, inconscientes.
Escolher ballet, na configuração familiar do Billy, seria recusar sua identificação com o pai. A música, o piano, a dança, estaria ligada a sua identificação com a mãe. A luta de boxe, trabalhar como mineiro, ficar a vida toda na mesma província, estaria ligada a sua identificação com o pai. Ele compôs dentro de si esses dois fatores da seguinte forma: seu objeto de realização era o ballet, que ele busca realizá-lo como o seu pai – com garra, determinação e força – fator da representação paterna em si mesmo.
E foi dançando com garra, determinação e força - como o próprio pai – que ele o sensibiliza e mostra quem ele é. Nesse momento, ele conquista a confiança, o respeito e a ajuda imprescindível para realizar seu sonho e ser ele mesmo, como a mãe recomendara na sua carta de despedida.
A relação deles muda, se amplia e agora juntos, partem para a conquista. O pai então pode se orgulhar do filho, pois pode reconhecer que o filho tem um pedaço dele dentro de si. O filho só pode conquistar seu sonho, pois tinha pai e mãe representados em si mesmo.

Guiomar Papa de Morais
Candidata do Instituto de Psicanálise da
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