"O Rei Leão"

O Cinema e a Psicanálise
A Simplicidade Notável do Desenho Animado
Comentários sobre o filme "O Rei Leão " de Walt Disney.

Mércia Maranhão Fagundes
Maio-2002


Psicanálise e Cinema apresentam uma relação íntima que tem sido reconhecida há algum tempo. Isso se deve muito provavelmente ao fato de a leitura psicanalítica poder iluminar o significado de um filme. Através da teoria da clínica psicanalítica pode-se desvendar o que está acontecendo na tela. Certamente, ao se realizar esse trabalho não se pretende chegar a uma leitura definitiva, ou seja, não se propõe encontrar uma verdade absoluta. Pretende-se, sobretudo, ampliar as possibilidades de interpretação de alguns episódios.
Assim como com todas as formas de arte, através do contato com o cinema também conhecemos um pouco de nós mesmos. De certa forma o filme revela a linguagem do inconsciente e tem se tornado uma fonte vastíssima para o conhecimento e estudo das imagens psicológicas do nosso tempo. Assistir a um filme e interpretá-lo tem para a audiência contemporânea a mesma utilidade que a tragédia teve para os gregos por cinco séculos.
A tragédia não só produzia catarse, mas também criava uma oportunidade de unir a audiência a sua cultura, através de dimensões mitológicas. E assim da mesma maneira que Aeschylus ou Sophocles proveram uma conscientização para os cidadãos de Athenas, pode-se dizer que os cineastas despertam nossa capacidade crítica não só em relação ao nosso meio, mas também em relação a nós mesmos.
Eu acredito, que nesses encontros em que apontamos nossos olhares para o Cinema e o comentamos podemos estar vivendo uma experiência similar. Essa experiência de assistir um filme, pensar e conversar com a audiência sobre ele abre um espaço para a própria mente exercitar movimentos. Nesse processo podemos nos identificar, de maneira prazerosa ou não, com os sentimentos apresentados, conhecendo e desvendando nossos próprios mitos pessoais e os do nosso tempo.
Segundo Levi-Strauss , mitos são transformações de conflitos fundamentais, ou contradições, que não podem ser resolvidos na realidade e por isso são transformados em símbolos. Considerando tal afirmação pode-se dizer que o filme disponibiliza soluções através das quais se realizariam os desejos, se dissolveriam muitos dos dilemas humanos. Isso me faz pensar que nesse momento participamos de um evento de uma maneira muito ativa, ou seja, ao assistirmos um filme não nos deparamos apenas com a tentativa de entretenimento. No escuro do cinema, mantendo uma certa distância de nós mesmos e de nossa realidade cotidiana, nos é possível vencer a nossa própria ansiedade através da empatia que se estabelece com o personagem e sair, portanto, enriquecido e aliviado.
Freud tinha algumas reservas em considerar o cinema como arte, porém não desencorajou seus discípulos a se envolverem com produções cinematográficas que trataram, inclusive, de seus trabalhos sobre os sonhos. No início dos anos 50, psicanalistas observaram que o estudo psicológico do cinema pode ser tão interessante e útil para o conhecimento do funcionamento da mente, como foram as aplicações do pensamento psicanalítico, realizadas por Freud, às peças de Shakespeare, Ibsen e Sophocles. Talvez, fosse possível até nos determos sobre questões dessa natureza e conversar longamente sobre elas, porém, do meu ponto de vista, como pediatra e psicanalista, especialmente frente a um desenho animado, outras questões ganham maior relevância.
Como psicanalista sou pressionada, pela necessidade de cuidar do sofrimento do meu cliente, a dividir com ele a vivência de um quantum da sua angústia. Em cada sessão de análise vou ao encontro de sua dor mental. Nesse sentido, vejo o acesso da criança ao cinema, especialmente ao desenho animado, como um meio auxiliar na tentativa de digerir um pouco do que ainda até então, não encontrou espaço mental para ser expresso e compreendido.
O cinema tem trazido mais e mais, especialmente para a criança muito pequena, a possibilidade de se identificar com um personagem e através dele conscientizar-se de algumas situações. Elas vêem no personagem um recipiente em que colocam suas emoções, muitas vezes, violentas e desconhecidas. Esse é um recurso através do qual elas cuidam de sua mente e aprendem a respeitá-la.
Elas normalmente escolhem, se identificam com alguns personagens e passam a se referir a eles com desenvoltura e intimidade. Em determinado momento são, freqüentemente, tomados como ponto de partida para elaboração de muitas situações conflitantes. Todos nós, que convivemos com as crianças sabemos como elas adoram assistir e assistir a seus filminhos e como se aliviam e se tranqüilizam depois disso.
Isso, na verdade, não acontece só com elas. Eu detecto mesmo como algo peculiar do ser humano a dificuldade de expressar suas emoções. Muitas vezes, o que nos resta é viver momentos em que nos sentimos completamente soterrados por elas. É quase uma guerra travada a cada momento. A tentativa de fazer com que as emoções caibam nas palavras e no tempo delas, para que possamos comunicá-las e, então, estabelecer nossos contatos com outras mentes e com próprios nossos vínculos é extremamente difícil. Se não conseguimos encontrar um modo de fazê-lo, nossa mente explode em angústia e sobrevem a loucura. Às vezes vivemos microexplosões mentais, que se não respeitadas podem causar desastres maiores.
Poderia dizer também que quanto menor nossa experiência de vida e nossa performance em viver momentos de tensão e dor, ou seja, quanto maior a imaturidade, com certeza, será maior a angústia. Na criança, consequentemente, a turbulência emocional atinge seu grau máximo. Isso se deve a sua imaturidade, acrescida da grande fluidez da sua mente e da extrema plasticidade mental(que consiste na propriedade de adquirir determinadas formas sensíveis, por efeito de uma ação exterior) que lhe são características. Por mais difícil que nos seja aceitar, em alguns momentos, percebemos claramente que a vida da criança não é fácil e que o mundo dela não é só colorido pelas suaves cores do arco-íris.
Talvez essa realidade infantil fique mais compreensível para nós adultos, se nos recordarmos de emoções que vivemos com os desenhos animados por exemplo. Certamente não nos esquecemos de como foi lindo e apaixonado o beijo de "A dama e o vagabundo". Será que já vimos outros capazes de nos tocar com tanta intensidade ? Não nos esquecemos também da dor insuportável que sentimos pela morte da mãe do "Bambi", que representa uma realidade tão terrível, que jamais poderia até ter sido sonhada. Através dessas emoções vivenciamos outras só nossas, das quais nem sempre temos a menor noção e simultaneamente construímos nossa catarse.
Em minha experiência como psicanalista, no contato íntimo com a mente das crianças, trabalho e convivo com os personagens especiais de cada um. Através deles é possível identificar em cada "Simba" que vai viver sua sessão de análise suas especificidades, e também as vivências que são comuns a todos, porque são próprias de quem é humano, até de quem, na sua fragilidade, não pode se sentir como tal e precisa viver como se fosse um deus.
E é pautada nessa fragilidade, que é tão conhecida de toda criança, que a história de um garoto, o leãozinho Simba se inicia. Como todo início de vida, como todo nascimento, o início desse filme traz uma beleza incomparável. Traz também a alegria e esperança de um novo tempo, a certeza de um futuro que já começou. É um momento de solidariedade com a vitória que o novo ser conquista ao sobreviver a ruptura que consiste o nascimento, É um momento de cumplicidade com o ser lançado em um meio tão estranho e, ao mesmo tempo, tão repleto de possibilidades de realizações.
A força da vida que palpita exige uma reverência de toda natureza, forma uma coligação com aquele que nasce, como se seu nascer fosse um pouco o nascer de todos nós, mesmo daqueles cansados e sofridos, pois estão sujeitos às adversidades e vicissitudes que a mesma vida muitas vezes nos apresenta. Até os que, por despeito ou inveja, não conseguem comemorar, não ficam imunes à grandeza e à majestade que contém o nascimento. Com clareza o Tio Scar de Simba nos dá um bom exemplo dessa situação e ainda explicita quão intenso é o seu sofrimento, alertando o próprio Rei para não menosprezá-lo.
Simultaneamente, o nascimento de Simba me parece ser um momento grandioso para o bom Mufasa. Ter se tornado pai o deixa tão orgulhoso e poderoso que está realmente insuperável, invencível. Talvez sinta-se, como me parece, sente-se todo homem que se torna pai. Agora, sim, é Rei!
A partir daí, passamos a reviver com Simba o árduo esforço que cada um de nós faz para paulatinamente conquistar toda a nossa identidade, inclusive de raça e de gênero. Em um primeiro momento, já podemos ver o quanto esse bebezinho se apavora ao perceber que a vida está em movimento e que é preciso acertar o próprio passo com ela para que essa não lhe escape. Ele percebe que ela é complexa, compreende diferenças nem sempre muito aceitas e que são, em muitas situações, sentidas como gradação de poder.
Nesse momento questões tais como Quem são os superiores ? Quem é o topo ou a rabeira da cadeia alimentar ? A criança sabe de diferenças, de poder ? Quem sou eu nesse mundo desconhecido ? são levantadas.
Simba, lançado no seio, na intimidade da vida de um casal, passa a contar literalmente com esse homem e essa mulher para aos poucos adquirir a capacidade de ser. É muito bonito ver como é apresentada, nessa história, a divisão de cuidados do bebê e posteriormente do leãozinho pelo casal de pais, pois remete-nos à nossa realidade.
A contenção da mente de um bebê é dada, na mesma medida pelo pai e pela mãe, apesar de existir na nossa cultura uma celebração mais destacada da função da mãe. É na presença do pai, que intermedia a relação da mãe com seu bebê, ou da mãe, que intermedia a relação do pai e o bebê, que pode ser afastada a possibilidade de confusão de identidades. É na saudável convivência desse triângulo, podemos acrescentar muito amoroso, que o jovem bebê pode começar a ser visto pelos pais, inicialmente, e depois por ele mesmo como ser único.
Acredito que esse filme levanta uma questão que se impõe para ser pensada aqui. Quantas vezes os pais vivem momentos de impasse na difícil função de educar os filhos, culpando-se, poderiam ao invés disso, quem sabe, dividir mais entre si os cuidados dos filhos. Talvez, os filhos precisem muito mais de um casal cuidando deles, pai e mãe, dois pontos de vista diferentes, para desenvolver sua mente e sua capacidade de pensar, do que de pais e mães que se esforçam para atingir um grau de harmonia e perfeição impossíveis.
O reconhecimento pela mãe de que seu bebê não é só seu, mas que tem um pai, é que lhe permitirá acolher e respeitar essa relação o que fatalmente libertará, desde o início, o bebê para que ele possa ver o mundo, mesmo que, no princípio, essa seja uma visão compartilhada.
É muito lindo de ver, quando Saraby, a mãe do Simba com um delicado e carinhoso empurrãozinho permite e respeita a relação do leãozinho com seu pai e como conseqüência nos é possível vê-lo observando com um olhar ambicioso e guloso toda a riqueza do pai e do mundo. Ele diz pasmo : - " Tudo isso que o sol toca um dia será meu ..."
Cresce com Simba sua admiração pelo pai, generoso não parece rivalizar com o filho, mostrando-se responsável e, porque não dizer, muito humano, com seus temores e com seus momentos de coragem. Porém as dificuldades para as crianças são tantas e tão grandes que o leãozinho acredita que o pai é mesmo um herói. Ele mesmo verbaliza: - "O que eu quero mais é ser Rei !"
A partir daí, vai-se configurando a possibilidade de um conluio com o tio invejoso, o desejo de se apossar de tudo que o pai tem. Aos olhos de Simba este é dono de um Império. E tem a riqueza maior, tem a Mãe. A ânsia de poder um dia também ser Rei, substituir o pai, desperta em Simba culpa. Por isso, ele assume a culpa por um assassinato que, na realidade, não cometeu. Essa culpa pode persegui-lo por quase toda a vida.
A dor maior é não poder contar com o amor e a compreensão do pai presentes no seu coração. Não merece mais aquele império. Não merece mais ter uma família. Sobrevem tudo o que Simba mais temia: a dor do desamparo, a dor da solidão. Impedido pela culpa de poder contar com o amor dos pais e com o que até então tinha recebido, o leaozinho não pode assumir sua identidade e usufruir com plenitude de sua criatividade e sexualidade. Assim abandona o lar e busca conforto em "Ratuna Matata !"
Como para todo garotinho, a convivência amorosa com os camaradas pode mitigar essa culpa e possibilitar a experiência de uma relação com amigos e companheiros, relação essa tão necessária e saudável.
A realidade se impõe e a adolescência explode com toda sua força. A vida com os companheiros apenas não satisfaz mais. Os impulsos, o desejo por uma mulher que o contenha de fato passam então a orientá-lo na vivência do próprio destino. É impossível, para Simba, manter-se imune ao desejo da mulher, da Nala.
Esse é um outro momento muito feliz da história. Aquele em que Simba sente que sua antiga companheira de folguedos infantis é capaz de estar com ele como homem e contê-lo, porque agora, ela é uma mulher. No olhar dela de mulher, ele se vê um homem.
Esse episódio também aponta para uma questão que eu gostaria de chamar a atenção. O critério sabiamente usado por Simba para a escolha de sua mulher. O que quero destacar é que ele escolhe aquela capaz de enfrentá-lo, de contê-lo, de defrontar com a sua agressividade, com a sua potência e dividir com ele seus momentos juntos, com soltura e liberdade. É algo que merece uma reflexão, não ?
As princesinhas muito frágeis, indefesas e delicadas, que permanecem à espera de serem despertadas de seus sonhos, quando a vida se tornar um sonho, não podem oferecer aos seus príncipes firmeza de companheiras, de cúmplices, para que estes possam estar potentes e livres, com amor. Se por outro lado, usarmos o critério de Nala para a escolha de um homem esta deveria cair sobre o homem que lhe despertasse muita admiração.
Por outro lado, na minha maneira de ver, um outro aspecto revelado por esse filme é a forma como Simba construiu sua identidade a partir de sua vivência masculina. Viver a identidade de gênero, de macho, para Simba implicou assumir também a sua história e reviver, através de sentimentos, suas memórias. Implicou assumir os desejos de um passado tão distante, adormecido, porém ainda conflitado e presente.
Tal experiência nos remete a uma reflexão. Se a culpa não é tão absurda e se o contato com o pai é afetivo, carinhoso, próximo e firme, com foi o de Simba com seu pai Mufasa, é possível, através do contato como foi o do Simba com ele mesmo, ainda conseguir resgatar o que é seu com força e coragem. Para isso ele precisou enfrentar, na luta com o tio incestuoso, que herda o trono e a mulher de Mufasa, também os seus próprios desejos amorosos dirigidos a mãe.
Finalmente, gostaria de ressaltar que uma das questões que mais me tocam nesse filme é que ele aborda simbolicamente a vivência da relação primeira, de um grupo de três, de um triângulo amoroso compreendido por pai, mãe e filho. Ele mostra que é nessa vivência que é possível nascer para a mente a possibilidade de ser produtivo, criativo, livre. Em outras palavras, nos momentos em que o bebê pode perceber que é cuidado por um casal, seu pai e sua mãe, é que se desenvolve sua capacidade de pensar; já que nesses momentos, ele pode perceber que os pais se relacionam com ele, porém, também, se relacionam entre si.
Nós humanos nos ressentimos muito quando percebemos que as pessoas não estão todo o tempo nos cuidando. Sofremos muito, porque, sabendo como somos capazes de sermos hostis, acreditamos que só não somos únicos no mundo, que não participamos como únicos em todas as relações, porque fizemos algo ruim ou porque nos traíram. Daí ficar insuportável saber das relações de nossos pais, de sua sexualidade, de sua criatividade. A dor e a percepção de quanto somos frágeis e instáveis sobrevem e então passamos a evitar qualquer situação que nos aproxime da realidade.
No entanto cada vez que conseguimos viver situações onde sobrevivemos ao sentimento de abandono e exclusão, adquirimos a experiência de que é possível viver a vida como ela é. É possível viver a realidade interna e externa, mesmo que ela não seja bem como sonhamos. Trata-se de um aprendizado longo, exercitado por toda a vida, mas que deve ser iniciado nos primeiros tempos. Nesses momentos em que suportamos tais vivências temperadas com raiva e ciúmes desenvolvemos nossa identidade e aprendemos a contar também conosco, muito mais do que com os que dizem nos cuidar.
A trajetória de Simba nos revela ainda que é assumindo a própria identidade com toda a responsabilidade que isso acarreta que é possível criar e viver cada um seu próprio destino, sua posição na natureza e adquirir a capacidade de, então, poder participar do ciclo da vida sem fim. Talvez, assim, possamos renascer um pouco ao nascimento de cada bebê, de cada pensamento, de cada idéia e manter a esperança de que cada idéia nova possa ajudar a construir um novo tempo, uma nova era, onde haja espaço para as diferenças, nem que estas sejam suportáveis apenas por alguns instantes, mas que neles possamos cada vez nos sentir mais livres. Quem sabe, seja a maneira de ser único, nas próprias diferenças e na própria criatividade.
Essas vivências repletas de sentimentos contraditórios, intensos e turbulentos foram descritas por Freud e ele usou o mito do Édipo de Sóphocles para poder falar delas, mais ou menos como Shakeaspeare já havia feito ao escrever Hamlet e ainda, mais ou menos como nós hoje fazemos ao assistir ao desenho de Walt Disney, "O Rei Leão" e conversamos sobre a drama mental de Simba.
Por diversas vezes já ouvi de meus clientes, ainda crianças: -"Choro sempre que assisto ao Rei Leão, no momento em que morre o pai do Simba." Eu digo a eles que eles sabem o tamanho da dor de Simba, pois, muitas vezes, eles também sofrem assim...
Eu enfoquei, nos meus comentários, a conquista da identidade como, me parece, vivida pelo sexo masculino através da história do leãozinho Simba. Agora gostaria de ouvir de vocês outros enfoques possíveis, como por exemplo: E o adulto? Como se sente frente as vivências do Rei Leão ? Como se sentem os homens depois de se ouvir falar tanto de uma vivência masculina ?


REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

ARRIGONI, M.P., BARBIERI, G. ( 1998 ) . Narrazione e Psicoanalisi - Un approccio
semiologico. Milano. Raffaello Cortina Editore. 170p.
FERRO, A. ( 1995 ). Cultura della Reverie e cultura della evacuazzione. Porto Alegre.
SPPA,2000. 10p. ( Apresentado em Congresso Latino-Americano de Psicanálise, Gramado,1-
9 set.2000 ).
GABBARD, G. (1997). The Psychoanaliyst at the movies. Int. J. PsychoAnal., 78: 429-34.